terça-feira, 17 de março de 2009

Interrupção

Por motivos diversos, ocupações de trabalho, financeiras, doença familiar, terei de interromper as postagens temporariamente. Aviso, para não ser injusto com quem vem fazer a visita e nada encontra escrito. Criar exige liberdade. Quando ela tiver retornado eu recomeço...
A criativade morre sempre que não tem condições plenas de se fazer. Agradeço aos anônimos(?) por sua contribuição, aos que se manifestaram, as que se encantaram e foram gentis e até amorosos. Perdão aos que gostavam verdadeiramente, com sinceridade e emoção ao ler, por lhes tirar, subitamente, essa oportunidade. A vida mortal sempre se encarrega de destruir as fantasias e tirar o prazer até mesmo de fazer espaços como esses.
Espero que até aqui tenha valido a pena e tenha recompensado vocês. Aos que não gostaram de algo, ou não acharam bom os textos, minhas desculpas sinceras...
Com todo afeto e carinho....por todos

sábado, 7 de março de 2009

Texto 57 - Olhares...

Eu me cultivo debulhando miudezas. Debulho palavras como um lavrador que, na sua lavoura de seca, debulha as gotas de uma chuva como se fosse inundação, como quem debulha, no arreio da manhã, as vagens de feijão, para o cio de sua fome.

Sou de mínimos recebimentos. Carrego o escasso na memória. Fiz-me em dar. O que me assoreia é não retribuir. Teço margens, agüento o tranco, passo dos limites, e, às vezes, me faço de desentendido, só pelo mistério de reinventar a pessoa amada. Enxergo, no que me é dado, por menor e sem adornos que seja, o ofertório dos deuses, por minhas pequenezas de homem e humano.


Esmiúço o joio, cato, viro rendeira, para tecer do menor grão de trigo, o meu pão. Depuro as impurezas na bateia, para reter as notas de violino. Guardo as dores, as ofensas de boca e ato, amorteço-as, como quem cede seu corpo para as rosas necessárias.

O que me dão, de pouco, é farto, e que me tiram, de farto, é nada. Afinal, ela apareceu de repente, inesperada como uma miragem, mar e vela, linda e improvável, usando um vestidinho vermelho...

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Texto 55 - As flores do meu coração

Flores - Di Cavalcanti Eu sei, ainda não é outono e as folhas que enfeitaram os amores na primavera, agora são flores em outros corações, mas nos meus olhos já se anuncia a escassez da última estação. Trago, entretanto, flores tardias em meu peito. Nem todas, miram a luz do sol. Não constam dos catálogos dos biólogos, nem dos balcões das floristas. Cultivo espécimes únicos.



Algumas apenas mimetizam uma lembrança que envelhece à distância. Uma saudade. Outras apenas são uma tarde qualquer sob a chuva. E, algumas, são lírios de desejos carmins ou avencas esperançosas. Há, as delicadas, receosas, antigas flores machucadas, como soluços sem consolo, que não mais se abrem, como as esperanças dos amores inocentes. Há, entristecidas, as que morrem diariamente, por escassez de cuidados e abandonos. Mas, teimosamente, apesar de crer que o outono pode não ser um jardim às avessas, guardo flores no coração.


Escrevo velhas cartas de amor para ninguém, leio livros na varanda e a falta dela na primeira luz da manhã que atravessa minha consciência. Sonho ler todos os poemas e jogar gude tão bem quanto moleque. Bebo muito vinho e ilusões, diariamente, e isto me faz acreditar que não estou morto, mas, se duvidarem, exijo que beijem minha boca por longos dez minutos e, se eu reagir, me possuam enlouquecidamente como um milagre de sua própria existência, a regar as flores em meu coração.


Adoro restaurante, gosto de pratos enfeitados com canela e besteiras, incorretas, na rua, como taboca, caldo de cana e maniçoba no mercado. Danço mal e já perdi mulher por isso, mas engano no forró, que adoro, como um chamado que ecoa lá na memória. Nado pior ainda, tenho colesterol elevado, mas sei andar de bicicleta, viro lobisomem na lua cheia, te garanto, mesmo que você seja incrédulo, e cio, mas, apesar de tudo, tenho leiras de flores no meu coração.

Produzo muito. Acho que sou criativo. Contei só histórias que inventei para meus filhos dormirem, velhas lendas, de amores impossíveis, em que só eu acreditei. E sempre achei que a sala de casa era para jogar bola, fazer corrida de saco, pega-pega, giro maluco e outras invenções que povoam minha alma de menino, nunca vasos e móveis para as visitas. É lá que, apesar dos protestos e um ou outro acidente com arranjos, nos cansamos e ficamos deitados e sujos, no granito frio, abraçados às flores do meu coração.


Sou, essencialmente, emoção. E perdi o medo do choro. Sou péssimo em jogos, não gosto de matemática e falto de forma sistemática a ginástica. Uso óculos desde o canal de parto, sou alérgico a camarão, aviso desde já a quem me convida para jantar, pois já passei umas duas ocasiões devorando salada, sob a alegação de recomendação médica, urucubaca com mariscos, opção ecológica e coisas tais. Já passei dos quarenta e devo estar fora de moda, mas sei amar as palavras como ninguém e sonho flores no meu coração.


Amo as noites de lua, a volúpia dos seus feitiços, o pôr-do-sol que enfeita as moças, de graça, as coisas simples, o cheiro do rio lá na roça. Tenho períodos em que escolho roupas adequadas, outros não e dias que não calço meia por pura preguiça. Ainda creio que para sempre é possível e recomendo aos senhores que nunca deixem a mulher de sua vida lhe esperando para jantar e nunca durma, por maior que seja a zanga, sem perdão. Aprenda isso rápido, antes que seja tarde demais, pois temos todos, alambrados secretos nos jardins e o amor, por ser amor, não basta. Mas, ainda que eu esteja aprendendo a pertencer, tenho flores no meu coração.


Adoro conversar com velhas senhoras e nos apaixonamos reciprocamente. A última que amei assim foi Tia Regi, com sua ternura de fada madrinha, iluminada por candeeiros. Tenho facilidade com as crianças e aversão a chefes e poderosos, onde sempre se está a um passo da bajulação. Conto piadas razoavelmente, improviso e falo muito bem, mas sou ruim com dinheiro. Faço feira como uma boa dona de casa, mas detesto arrumar dispensa. Sei que, no outono, as folhas caem, secas, que os ossos doem feito poeira, mas tenho flores, que dizem te amo, eu meu coração.


Sei que só os amores ensandecidos são capazes de cruzar o longo outono da convivência, por isto aprendi a amar com os loucos. Sei que estou envelhecendo, embora saiba, esperançosamente, que há mulheres que colecionam antiguidades, mas tenho as flores mais novas, inaugurais, que nunca haviam florescido, apavorando meu coração.


Eu sei, eu sei. Não é outono. Hoje é domingo. É verão. As folhas ainda sombreiam todos os destinos. E, agora, eu apenas espero, que alguém cuide das flores do meu coração...

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Texto 54- Aniversário:o tempo, o tempo, o tempo...

Hoje............................................................... Ontem...
Aos leitores, obrigado. Opinem. Não se ocultem. Sem voçês eu não me refaço. Aos que, de fora do país ( Da China a Viena, Portugal, etc, etc,), também nos visitam, deixem um recado, uma opinião, mandem um mail, enfim se manifestem. Da opinião de todos é que posso medir se tem validade ou não continuar fazedno o blog, tecendo em textos o imaginário de vocês, se mudo o rumo. E, se quiserem, sugiram até um tema. Sei lá. Quem sabe sai um texto. Só não vale o silêncio... Basta um olá...

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Texto 52 - O jardim Avesso

O jardim de Giverny - Monet Namorados, enamorados, namorai, enamorai-vos, que ainda é tempo. Ainda que mudem os planetas e queimem as florestas, enamorai-vos. Que o tempo, como diz o poeta, é quando. E o coração não conhece, sabemos todos, outro remédio que não morrer de amores.


É preciso, mais que nunca, remar contra a maré, feito um insensato das convenções e regras. Que a maré, dizem os costumes, é contra o intenso. È rio sem força, talvegue de palmo, é sem estilo e sem destino. Que as relações são todas de balaio raso, de feitio sem enfeite, sem adereços, sem alegorias ou danças imaginárias.

Homens e mulheres olham-se apenas ao redor da cintura e adjacências como se vida tivesse currículo de posse construído na quantidade e não nos imponderáveis desatinos dos encontros improváveis.
Devemos namorar, não os namoros seriais, mortais na banalidade, frágeis na sustentação da vida e de suas inevitáveis dores, limitados por todos os pontos cardeais, tão mortais que sequer merecem um canto da memória. Tão comuns que apenas não passam de amores canibais a devorar a santidade do corpo feminino e a biografia dos homens.

Devemos amar com que ora, atendido pelos deuses, diante daquela mulher improvável, de tão linda. Tão incerta quanto a luz de uma estrela que se desfez há milhões de anos, tão real quanto o milagre de sua boca, dizendo seu nome, se oferecendo como um beijo.

E quando ela dançar nua, dentro de seu vestido, e os cabelos oscilarem como um feitiço ancestral, quando suas orelhas se enfeitarem de brincos grandes, e as chamas devorarem as roupas de suas vestes, quando tiverem lido todas as palavras de todos os livros, de todos os tempos e tiverem aprendido a dizer te amo em todas as línguas e dialetos, enfim, se pertençam, inevitáveis que são.

E, aí sim, o corpo em comunhão e febre, fará de cada um a redenção do outro, irrepetível, atemporal, ilimitado e inesquecível. Porque é preciso amar, ao menos uma vez, um homem ou uma mulher, como quem não sabe dizer adeus. Como quem nunca vai poder dizer adeus. Ainda que a vida, ou os erros, os separe.

É preciso amar como quem tece o fio da vida na existência do outro, no abraço de seu sono, com quem ao dormir se dilui e se infiltra nos poros da pele do parceiro e se tatua no seu corpo inteiro para a distância do momento seguinte, porque sabe que para amar sequer é preciso estar junto. É necessário, apenas, permanecer, porque nada mais irá bastar ou satisfazer.


Então, deixe-se surpreender, quando ele, ou ela, vier. E, embora erremos e amemos enganos, que nem valem a inocência dos apaixonados e o que damos, e nem sabem receber, devemos amar certos amores como quem faz uma leira, ceva e fertiliza a terra onde o outro pisa e a cuida diariamente, com flores e um jeito de olhar que só você terá, como só pode fazer um jardineiro fiel. A amar, e se deliciar de amar, o seu jardim do avesso.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

texto 51 - Ilusões

Não é o que tenho que me pertence.
Nem os seios que margeio
Ou o que tem endereço
e boca vândala de promessas.
Nem o que tenho guardado
-teu ouro do melhor-
ou o que me é dado
no leito, altar dos sacrifícios.

Não é o que tenho que me pertence,
pois meu verdadeiro é só o que me iludo ter.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Texto 50- A flor do meu avesso...

Mulher - Riolan Coutinho
Sei que virá. Pois é tua sina, o eterno retorno. Indultaremos-nos da condenação ao relento, ao pântano das ausências, com suas flores amorfas. Das ruínas do impossível surgirá linda, a alma tatuada de esperanças, o destino marcado para pertencer, as febres eriçando os pelos, a fome de retirante a espera de ser saciada. E surgirá de uma beleza indescritível, a língua com novos dialetos, a linha de meu horizonte na curva dos lábios, o riso de gerar chuvas de espanto e amores.


Eu me prenderei ao anzol de teu cio e não respeitarei as hierarquias de teu corpo e me deixarei em exilo no fluxo das marés de teu ventre. Descansarei no vão de teus seios - animal alado em vôo-, da luta de incriminar as rotas de teu corpo, navegadas sem cais e ordem, das indecências de nosso amor. Eu te sagrarei santa, e tu pecará, pelo meu prazer. Eu me farei devasso para resgatar a porção clandestina de tuas vontades e tu se vestirás de açucenas e lírios e terá cheiro de banho e lavanda.


Na vertigem abissal de tua dança de acasalamento e sedução, e na fartura precisa e exata de tua forma, inscreverei as escrituras de tua permanência, e com o alfabeto de teus encantos, e o sargaço do mar de liames que banha teus olhos, tecerei a cartilha por onde irei rezar. Tu deixarás pai e mãe e eu deixarei pai e mãe, porque a vida se despedaça na tua falta. Inaugurarei tua dinastia, e nos guiaremos pelos luares, para evitar o carpir das despedidas e dos desencantos comuns.


Urdirei tua vida como minha casa, construída peça por peça, e untarei tua pele de meu desejo. Na lavoura de nos amarmos, infindáveis, farei abrigos para te proteger. E cuidarei dos rumores de tuas dores, como minha vindima. Velarei teu sono com o abandono dos amados e quando me acordar, por vontade, saudade, medo da morte ou do fim, e nos jogarmos abraçados nos delitos de nossas bocas insensatas eu saberei enfim, em paz, que você é a flor mais bonita e derradeira do meu avesso.

sábado, 31 de janeiro de 2009

A dança da vida...

saudades, saudades...

Reduzi a saudade, mas o tempo e a criatividade empacaramm no texto 50. Mas eu volto...rss

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Texto 49 - Inventário

Modigliani - Nu Deitado

Das minhas dores mais longas,
desbagoarei os gomos,
pra atender à fome dos cães.
Meu olhar sem escamas,
e a senha de teu corpo,
pode levar ou esquecer:
não me cabe guardar inocências.

As fraquezas, inclusive
meu choro de homem
e aquela noite, era outubro,
serão minhas, no inventário.
As demais miudezas: lençóis,
projetos inacabados, risos,
guardemos, nos inúteis da memória.


Do que sou, ao fim,
serei sempre, exílio.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Texto 48 - Desamor

Ela se vestia de lua,
semeava gerânios nos meus presságios
e lançava seus desatinos aos longos
cabelos do meu desejo.

Mas sua carne de receios
alimentou os cães
e outros desencantos.

E, enfim, poeira de ossos
na minha memória,
ela dança nua.


Poema premiado com segundo lugar no concurso nacional da revista literária Iararana

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Texto 47 - Encilhamento

Renoir - liseuse
Sempre estivestes perdida
de mim para mim mesmo.
Se um dia viestes,
com ares de quem fica,
foi apenas para marcar
o irremediável início
de teus passos de ida.
Nunca estivestes onde ficastes,
e, inteira,
fostes apenas na saída.

Nunca te possuí, pois,
partida, quando viestes,
era apenas a que já se tinha ido.


De amanhã até segunda estou indisponivel em Barra Grande- Taipu de Fora...Praia e vinho, vinho e praia....Bom fds...amo vocês...

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

texto 46 - Devaneio II

...e então, deixo que meu corpo nu, e urgente, se embaraçe no teu e inscrevo na tua pele o meu desejo. Faço de tua geografia, escarpas e mirantes, minha pátria, e teus gemidos o dialeto de meu ritmo. Deixo que a língua decifre, apure, sem pudor, tudo que há.

Deixo teus lábios dancem nos meus, cordillheira sendo escalada, lentamente, depondo as armas da permissão, as águas de sol e mel escorrendo e aquecendo a língua como bebida sagrada, geleira se derretendo para a promessa de inventar um mar inteiro, as margens entreabertas, as costas, o rêgo, o fardo de fêmea se ofertando. Percorro os anéis de Saturno ao avesso, como caça, vítima, algoz de gostos, enqaunto ouço teus pedidos devassos que os mãos invadam as concessões, as capitanias.

Quando me toma, festa reciproca, e me lambe sem pressa, como te disse, enche a boca, sentindo-se gloriosa do poder que ela tem, do domínio que impõe, na fome, na gula, na dança que fará da gala nos teus lábios, como camada de sal, do que toma de gole, me faz saber que a porteira do céu se abre por teus lábios...

Então nos beijamos feito desesperados, andarilhos das vontades e posses, o gosto um do outro na saliva, perpetuando-se, inimitável.


E me largo, retorno infindável, entre tuas coxas, mortal abandonado a tua sanha, veneno, e deixo que a boca te coma toda, te coma, sem salvações, me deliciando com o gozo que me sagrará teu homem, posseiro, fio de linho a te trazer viva, do labirinto, e te inaugurar, meu perfeito amor...


segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Texto 45 - Proposta...

Crisantemos - Tarsila do Amaral
Eu não sei quem tu és, mas te trarei gerânios e rosas únicas, diariamente, como acalanto de tuas delicadezas, e inventarei leiras de jardim, só como sesmaria de teu riso. E me perderei em tua vida deitando nas brancas naus de sal, de teus olhos.


Estenderei, filho do sertão, que sou, minha esteira de licuri para que descanse tuas dores, antes ao relento, sem julgamentos, ou medidas. Farei altares de tudo que é lindo em você, e ofertório do último amor que me resta. Saberei que danças secretamente dentro de teus vestidinhos, uma dança imperceptivel, a quem não sagrou a paixão nas tuas formas.


Beberemos vinho, bailaremos na chuva e faremos amor, ao amanhecer, nos tatuando e refazendo no corpo um do outro, para enfrentar a longa voragem do cotidiano. Comprarei o pão do dia, quente e familiar, e o repartiremos no jantar, como um novo milagre dos peixes.

Desaguaremos no mar e andaremos na areia da praia e das tentações, sem sandália, e inventaremos novas pegadas e cumplicidades. Eu serei tuas recusas e tu serás a minha. À noite, deixarei água na tua cabeceira, para que saiba que estou ao teu lado, nas tuas sedes e chocolate, pois há vontades que nem um homem pode atender nas mulheres.

E, ainda que saiba que muitos homens podem devorá-la, e eu a outra, não faremos da cobiça o carpir do exílio. Amaremos, não como quem se sente acuado, entre temores, mas como quem anda nos quintais, e adormeçe nos braços do outro como se fosse a varanda de seus sonhos..

Ainda sei de amar com flores e amavios, fiando a mulher e deusa, feito devoto, só não sei aonde te encontro...

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Texto 44 - Soneto a Mulher que não vem

Mulher - Renoir
Tão fundo e imenso é o que espero
que se é teu ou meu, o amor, já é incerto.
Assim, ao tê-la, não me basto e desespero
E, na ausência, me cabe outro deserto.

Mas, no milagre da carne, enfim
te possuo, sem se dares, ou alardes
E, no desengano de amar assim,
te perpetuo, em tuas brevidades.

E é tão vasto e pleno este abandono,
que mil labaredas me consomem
como alma que se perde de seu dono.

Pois só a tu foi dado o direito
de fiar a vida de teu homem,
nas tardes inteiras do teu leito.



Ps: post novo só segunda. Até lá, de dia praia, de noite vinho. Qquer emergência encontro-me indisponível na Barraca do Lôro, em Praia do Flamengo ( toda boa até no nome..). Bom fds...

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

texto 43 - Devaneio ...Ato I

Desfaço o laço de seu vestido e, nua, peço que me espere na cama e digo que só a tocarei quando a calcinha mudar o cheiro das esperas e sentir que me espalho pelo pano, a antecipação te consumindo, o ingreme de tuas paredes lentamente se liquefazendo, se anunciando. Saberás que é intangivelmente linda e que te amo, pois te rodearei, e farei do teu ouvido meu altar de obscenidades. Caçarei o que viola tua sanidade, os limites, teu sagrado e te direi sem pudor, entre posseiro e homem, entre poeta e sacana...

Deixarei que a respiração de minha boca aqueça tua pele, de tão próxima, migrando por teu corpo feito febre. Rodearei teus seios como mirantes, antes que prenda os bicos, nos dentes. Decorarei os movimentos de tuas coxas, apertando-se uma contra a outra, se devorando e quando disser que está pronta, rasparei os lados de tua barriga com a unha, suavemente, e, com os dedos molhados da saliva de te admirar e saber o que vou ter, te percorrerei como andarilho, nomade, revirando tua geografia, os detalhes, as contrações, as miragens de tua imagem..

Te alisarei longamente, como quem esculpe e molda, e vai polindo sua própria escultura. Beijarei tua boca e esperarei tua língua dentro de mim ( te dando a posse, de ser tu homem e eu tua mulherzinha), como quem anula as fronteiras. Saberei que se anuncia fêmea, fome, desespero. Deixarei que tua mão tome a minha forma, e volume, para que, todas as vezes, todas as vezes, que ela se fechar no vazio, tu lembres o que te falta, o tanto que poderia ter e sinta-se incompleta e insaciada...

Estendo o braço e sinto os pêlos, poucos, no limite da roupa e você arqueando as coxas propondo uma nudez desenfreada e sem vergonha. Eu a olho descer lentamente esperando esta visão que me enlouqueçe que é você dobrar as pernas ligeiramente e a calcinha cruzar o meridiano dos teus joelhos....

( vai continuar...)