...e então, deixo que meu corpo nu, e urgente, se embaraçe no teu e inscrevo na tua pele o meu desejo. Faço de tua geografia, escarpas e mirantes, minha pátria, e teus gemidos o dialeto de meu ritmo. Deixo que a língua decifre, apure, sem pudor, tudo que há.
Deixo teus lábios dancem nos meus, cordillheira sendo escalada, lentamente, depondo as armas da permissão, as águas de sol e mel escorrendo e aquecendo a língua como bebida sagrada, geleira se derretendo para a promessa de inventar um mar inteiro, as margens entreabertas, as costas, o rêgo, o fardo de fêmea se ofertando. Percorro os anéis de Saturno ao avesso, como caça, vítima, algoz de gostos, enqaunto ouço teus pedidos devassos que os mãos invadam as concessões, as capitanias.
Quando me toma, festa reciproca, e me lambe sem pressa, como te disse, enche a boca, sentindo-se gloriosa do poder que ela tem, do domínio que impõe, na fome, na gula, na dança que fará da gala nos teus lábios, como camada de sal, do que toma de gole, me faz saber que a porteira do céu se abre por teus lábios...
Então nos beijamos feito desesperados, andarilhos das vontades e posses, o gosto um do outro na saliva, perpetuando-se, inimitável.
E me largo, retorno infindável, entre tuas coxas, mortal abandonado a tua sanha, veneno, e deixo que a boca te coma toda, te coma, sem salvações, me deliciando com o gozo que me sagrará teu homem, posseiro, fio de linho a te trazer viva, do labirinto, e te inaugurar, meu perfeito amor...