Eu sei, ainda não é outono e as folhas que enfeitaram os amores na primavera, agora são flores em outros corações, mas nos meus olhos já se anuncia a escassez da última estação. Trago, entretanto, flores tardias em meu peito. Nem todas, miram a luz do sol. Não constam dos catálogos dos biólogos, nem dos balcões das floristas. Cultivo espécimes únicos.Algumas apenas mimetizam uma lembrança que envelhece à distância. Uma saudade. Outras apenas são uma tarde qualquer sob a chuva. E, algumas, são lírios de desejos carmins ou avencas esperançosas. Há, as delicadas, receosas, antigas flores machucadas, como soluços sem consolo, que não mais se abrem, como as esperanças dos amores inocentes. Há, entristecidas, as que morrem diariamente, por escassez de cuidados e abandonos. Mas, teimosamente, apesar de crer que o outono pode não ser um jardim às avessas, guardo flores no coração.
Escrevo velhas cartas de amor para ninguém, leio livros na varanda e a falta dela na primeira luz da manhã que atravessa minha consciência. Sonho ler todos os poemas e jogar gude tão bem quanto moleque. Bebo muito vinho e ilusões, diariamente, e isto me faz acreditar que não estou morto, mas, se duvidarem, exijo que beijem minha boca por longos dez minutos e, se eu reagir, me possuam enlouquecidamente como um milagre de sua própria existência, a regar as flores em meu coração.
Adoro restaurante, gosto de pratos enfeitados com canela e besteiras, incorretas, na rua, como taboca, caldo de cana e maniçoba no mercado. Danço mal e já perdi mulher por isso, mas engano no forró, que adoro, como um chamado que ecoa lá na memória. Nado pior ainda, tenho colesterol elevado, mas sei andar de bicicleta, viro lobisomem na lua cheia, te garanto, mesmo que você seja incrédulo, e cio, mas, apesar de tudo, tenho leiras de flores no meu coração.
Produzo muito. Acho que sou criativo. Contei só histórias que inventei para meus filhos dormirem, velhas lendas, de amores impossíveis, em que só eu acreditei. E sempre achei que a sala de casa era para jogar bola, fazer corrida de saco, pega-pega, giro maluco e outras invenções que povoam minha alma de menino, nunca vasos e móveis para as visitas. É lá que, apesar dos protestos e um ou outro acidente com arranjos, nos cansamos e ficamos deitados e sujos, no granito frio, abraçados às flores do meu coração.
Sou, essencialmente, emoção. E perdi o medo do choro. Sou péssimo em jogos, não gosto de matemática e falto de forma sistemática a ginástica. Uso óculos desde o canal de parto, sou alérgico a camarão, aviso desde já a quem me convida para jantar, pois já passei umas duas ocasiões devorando salada, sob a alegação de recomendação médica, urucubaca com mariscos, opção ecológica e coisas tais. Já passei dos quarenta e devo estar fora de moda, mas sei amar as palavras como ninguém e sonho flores no meu coração.
Sou, essencialmente, emoção. E perdi o medo do choro. Sou péssimo em jogos, não gosto de matemática e falto de forma sistemática a ginástica. Uso óculos desde o canal de parto, sou alérgico a camarão, aviso desde já a quem me convida para jantar, pois já passei umas duas ocasiões devorando salada, sob a alegação de recomendação médica, urucubaca com mariscos, opção ecológica e coisas tais. Já passei dos quarenta e devo estar fora de moda, mas sei amar as palavras como ninguém e sonho flores no meu coração.
Amo as noites de lua, a volúpia dos seus feitiços, o pôr-do-sol que enfeita as moças, de graça, as coisas simples, o cheiro do rio lá na roça. Tenho períodos em que escolho roupas adequadas, outros não e dias que não calço meia por pura preguiça. Ainda creio que para sempre é possível e recomendo aos senhores que nunca deixem a mulher de sua vida lhe esperando para jantar e nunca durma, por maior que seja a zanga, sem perdão. Aprenda isso rápido, antes que seja tarde demais, pois temos todos, alambrados secretos nos jardins e o amor, por ser amor, não basta. Mas, ainda que eu esteja aprendendo a pertencer, tenho flores no meu coração.
Adoro conversar com velhas senhoras e nos apaixonamos reciprocamente. A última que amei assim foi Tia Regi, com sua ternura de fada madrinha, iluminada por candeeiros. Tenho facilidade com as crianças e aversão a chefes e poderosos, onde sempre se está a um passo da bajulação. Conto piadas razoavelmente, improviso e falo muito bem, mas sou ruim com dinheiro. Faço feira como uma boa dona de casa, mas detesto arrumar dispensa. Sei que, no outono, as folhas caem, secas, que os ossos doem feito poeira, mas tenho flores, que dizem te amo, eu meu coração.
Sei que só os amores ensandecidos são capazes de cruzar o longo outono da convivência, por isto aprendi a amar com os loucos. Sei que estou envelhecendo, embora saiba, esperançosamente, que há mulheres que colecionam antiguidades, mas tenho as flores mais novas, inaugurais, que nunca haviam florescido, apavorando meu coração.
Eu sei, eu sei. Não é outono. Hoje é domingo. É verão. As folhas ainda sombreiam todos os destinos. E, agora, eu apenas espero, que alguém cuide das flores do meu coração...
Adoro conversar com velhas senhoras e nos apaixonamos reciprocamente. A última que amei assim foi Tia Regi, com sua ternura de fada madrinha, iluminada por candeeiros. Tenho facilidade com as crianças e aversão a chefes e poderosos, onde sempre se está a um passo da bajulação. Conto piadas razoavelmente, improviso e falo muito bem, mas sou ruim com dinheiro. Faço feira como uma boa dona de casa, mas detesto arrumar dispensa. Sei que, no outono, as folhas caem, secas, que os ossos doem feito poeira, mas tenho flores, que dizem te amo, eu meu coração.
Sei que só os amores ensandecidos são capazes de cruzar o longo outono da convivência, por isto aprendi a amar com os loucos. Sei que estou envelhecendo, embora saiba, esperançosamente, que há mulheres que colecionam antiguidades, mas tenho as flores mais novas, inaugurais, que nunca haviam florescido, apavorando meu coração.
Eu sei, eu sei. Não é outono. Hoje é domingo. É verão. As folhas ainda sombreiam todos os destinos. E, agora, eu apenas espero, que alguém cuide das flores do meu coração...