sábado, 31 de janeiro de 2009

A dança da vida...

saudades, saudades...

Reduzi a saudade, mas o tempo e a criatividade empacaramm no texto 50. Mas eu volto...rss

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Texto 49 - Inventário

Modigliani - Nu Deitado

Das minhas dores mais longas,
desbagoarei os gomos,
pra atender à fome dos cães.
Meu olhar sem escamas,
e a senha de teu corpo,
pode levar ou esquecer:
não me cabe guardar inocências.

As fraquezas, inclusive
meu choro de homem
e aquela noite, era outubro,
serão minhas, no inventário.
As demais miudezas: lençóis,
projetos inacabados, risos,
guardemos, nos inúteis da memória.


Do que sou, ao fim,
serei sempre, exílio.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Texto 48 - Desamor

Ela se vestia de lua,
semeava gerânios nos meus presságios
e lançava seus desatinos aos longos
cabelos do meu desejo.

Mas sua carne de receios
alimentou os cães
e outros desencantos.

E, enfim, poeira de ossos
na minha memória,
ela dança nua.


Poema premiado com segundo lugar no concurso nacional da revista literária Iararana

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Texto 47 - Encilhamento

Renoir - liseuse
Sempre estivestes perdida
de mim para mim mesmo.
Se um dia viestes,
com ares de quem fica,
foi apenas para marcar
o irremediável início
de teus passos de ida.
Nunca estivestes onde ficastes,
e, inteira,
fostes apenas na saída.

Nunca te possuí, pois,
partida, quando viestes,
era apenas a que já se tinha ido.


De amanhã até segunda estou indisponivel em Barra Grande- Taipu de Fora...Praia e vinho, vinho e praia....Bom fds...amo vocês...

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

texto 46 - Devaneio II

...e então, deixo que meu corpo nu, e urgente, se embaraçe no teu e inscrevo na tua pele o meu desejo. Faço de tua geografia, escarpas e mirantes, minha pátria, e teus gemidos o dialeto de meu ritmo. Deixo que a língua decifre, apure, sem pudor, tudo que há.

Deixo teus lábios dancem nos meus, cordillheira sendo escalada, lentamente, depondo as armas da permissão, as águas de sol e mel escorrendo e aquecendo a língua como bebida sagrada, geleira se derretendo para a promessa de inventar um mar inteiro, as margens entreabertas, as costas, o rêgo, o fardo de fêmea se ofertando. Percorro os anéis de Saturno ao avesso, como caça, vítima, algoz de gostos, enqaunto ouço teus pedidos devassos que os mãos invadam as concessões, as capitanias.

Quando me toma, festa reciproca, e me lambe sem pressa, como te disse, enche a boca, sentindo-se gloriosa do poder que ela tem, do domínio que impõe, na fome, na gula, na dança que fará da gala nos teus lábios, como camada de sal, do que toma de gole, me faz saber que a porteira do céu se abre por teus lábios...

Então nos beijamos feito desesperados, andarilhos das vontades e posses, o gosto um do outro na saliva, perpetuando-se, inimitável.


E me largo, retorno infindável, entre tuas coxas, mortal abandonado a tua sanha, veneno, e deixo que a boca te coma toda, te coma, sem salvações, me deliciando com o gozo que me sagrará teu homem, posseiro, fio de linho a te trazer viva, do labirinto, e te inaugurar, meu perfeito amor...


segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Texto 45 - Proposta...

Crisantemos - Tarsila do Amaral
Eu não sei quem tu és, mas te trarei gerânios e rosas únicas, diariamente, como acalanto de tuas delicadezas, e inventarei leiras de jardim, só como sesmaria de teu riso. E me perderei em tua vida deitando nas brancas naus de sal, de teus olhos.


Estenderei, filho do sertão, que sou, minha esteira de licuri para que descanse tuas dores, antes ao relento, sem julgamentos, ou medidas. Farei altares de tudo que é lindo em você, e ofertório do último amor que me resta. Saberei que danças secretamente dentro de teus vestidinhos, uma dança imperceptivel, a quem não sagrou a paixão nas tuas formas.


Beberemos vinho, bailaremos na chuva e faremos amor, ao amanhecer, nos tatuando e refazendo no corpo um do outro, para enfrentar a longa voragem do cotidiano. Comprarei o pão do dia, quente e familiar, e o repartiremos no jantar, como um novo milagre dos peixes.

Desaguaremos no mar e andaremos na areia da praia e das tentações, sem sandália, e inventaremos novas pegadas e cumplicidades. Eu serei tuas recusas e tu serás a minha. À noite, deixarei água na tua cabeceira, para que saiba que estou ao teu lado, nas tuas sedes e chocolate, pois há vontades que nem um homem pode atender nas mulheres.

E, ainda que saiba que muitos homens podem devorá-la, e eu a outra, não faremos da cobiça o carpir do exílio. Amaremos, não como quem se sente acuado, entre temores, mas como quem anda nos quintais, e adormeçe nos braços do outro como se fosse a varanda de seus sonhos..

Ainda sei de amar com flores e amavios, fiando a mulher e deusa, feito devoto, só não sei aonde te encontro...

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Texto 44 - Soneto a Mulher que não vem

Mulher - Renoir
Tão fundo e imenso é o que espero
que se é teu ou meu, o amor, já é incerto.
Assim, ao tê-la, não me basto e desespero
E, na ausência, me cabe outro deserto.

Mas, no milagre da carne, enfim
te possuo, sem se dares, ou alardes
E, no desengano de amar assim,
te perpetuo, em tuas brevidades.

E é tão vasto e pleno este abandono,
que mil labaredas me consomem
como alma que se perde de seu dono.

Pois só a tu foi dado o direito
de fiar a vida de teu homem,
nas tardes inteiras do teu leito.



Ps: post novo só segunda. Até lá, de dia praia, de noite vinho. Qquer emergência encontro-me indisponível na Barraca do Lôro, em Praia do Flamengo ( toda boa até no nome..). Bom fds...

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

texto 43 - Devaneio ...Ato I

Desfaço o laço de seu vestido e, nua, peço que me espere na cama e digo que só a tocarei quando a calcinha mudar o cheiro das esperas e sentir que me espalho pelo pano, a antecipação te consumindo, o ingreme de tuas paredes lentamente se liquefazendo, se anunciando. Saberás que é intangivelmente linda e que te amo, pois te rodearei, e farei do teu ouvido meu altar de obscenidades. Caçarei o que viola tua sanidade, os limites, teu sagrado e te direi sem pudor, entre posseiro e homem, entre poeta e sacana...

Deixarei que a respiração de minha boca aqueça tua pele, de tão próxima, migrando por teu corpo feito febre. Rodearei teus seios como mirantes, antes que prenda os bicos, nos dentes. Decorarei os movimentos de tuas coxas, apertando-se uma contra a outra, se devorando e quando disser que está pronta, rasparei os lados de tua barriga com a unha, suavemente, e, com os dedos molhados da saliva de te admirar e saber o que vou ter, te percorrerei como andarilho, nomade, revirando tua geografia, os detalhes, as contrações, as miragens de tua imagem..

Te alisarei longamente, como quem esculpe e molda, e vai polindo sua própria escultura. Beijarei tua boca e esperarei tua língua dentro de mim ( te dando a posse, de ser tu homem e eu tua mulherzinha), como quem anula as fronteiras. Saberei que se anuncia fêmea, fome, desespero. Deixarei que tua mão tome a minha forma, e volume, para que, todas as vezes, todas as vezes, que ela se fechar no vazio, tu lembres o que te falta, o tanto que poderia ter e sinta-se incompleta e insaciada...

Estendo o braço e sinto os pêlos, poucos, no limite da roupa e você arqueando as coxas propondo uma nudez desenfreada e sem vergonha. Eu a olho descer lentamente esperando esta visão que me enlouqueçe que é você dobrar as pernas ligeiramente e a calcinha cruzar o meridiano dos teus joelhos....

( vai continuar...)

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Texto 42 - Irreal

Gabrielle com uma rosa-Renoir Ela era tão linda que cegava meus olhos. E, fiandeira, recriava tudo que eu via, ou vivia. O riso de feitiço, capaz de mudar todas as rotas e a boca, altar exato, os lábios como leito, onde deitava e alcançava todos os gozos, embarcadouro de todos os desatinos. O beijo, ainda lembro, tinha aromas.

O cabelo longo, a cobrir o dorso nu, feito vestido de trigo, a erosão de milagre a esculpir o corpo - onde nada exagera, ou exclui- , milenarmente, as coxas fartas e precisas, a anca a enlouquecer os homens, o braço a se contrair e dançar enquanto se tocava, úmida e fêmea, a se prometer.

As marcas do sol, a delimitar os meridianos de prazeres. A vida, que se enfeitava toda de flores, só ao rumor de seus passos. O vaso, como liame da casa. A santa, contida em vestidos sacros, a devassa, de gozos insaciados, liberta em nudez e posse irrestrita, a fizeram a dançarina de meu coração...

Ela era linda, linda, e por ela escrevi tratados, aprendi idiomas e novas línguas, dormi ao relento, bebi cicuta e álcool, dançei sobre o perigo, invadi o ocidente e fui hereje e santo. Por ela me fiz jardineiro, só para lhe cuidar...

Ela era linda, linda, linda. E me inventava. Mas eu nunca a conheci...

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Texto 41-Desenlace


Não servirei mais para teu uso. Nem acalentarei ilusões em tuas tantas mentiras e descaso. Antes que tenhas horror de tu mesma, migrarei de tua banalidade e teu jeito de atriz, dissimulada até o fim. Não serei de serventia para manipulações e falsas lágrimas. Exilarei os filhos que faria na precisão de teu corpo. Incendiarei os bambuzais onde abriguei todas as delícias de tua vinda, envenenarei os peixes que te olharam nua. Viverei a míngua. Mas não comerei as migalhas do teu pão.

Rogarei em mim as palavras mais ferinas, andarei de mãos dadas com as feridas das lembranças, para que me libertem de teu viço. Não me concederei asilos. Eu me retalharei e como ave de rapina estarei sempre à espreita de todas as minhas recaidas de amor. Dormirei com a primeira da rua que me livre de te pertencer e lhe farei as juras mais falsas. Fraco, que sou, me enganarei todas as tardes na alegoria do pôr do sol, mas rogarei aos deuses para que ele não se ponha nunca mais e que o sol arda nos meus olhos e me cegue esta memória.

Salgarei minha carne com o sal da terra, para que flores, não me exalem. Não tenho refúgios, mas baterei as portas, até não saber mais voltar. Cuspirei no prato. Possuirei com febre de principiante aquela que me abrir as coxas e me der seu ventre, sem me dizer seu nome, àquela que não se lavar de mim depois do gozo, só para que afaste qualquer resíduo que ainda possa ser teu.

Não margeio meu abismo, nem insultos. Não se perdoa tanto, tanto, amar...

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Texto 40 - Venal

Agora, ao longe, ela é só fome, sob o decote e os desvãos do vestido. Os rumores da nova paixão vibrando em uníssono e retesando as fibras e glândulas para o bote depois do longo cerco. E o riso, lindo, se desfazendo em amavios, ciente do laço armado, do cio, de dona do jogo, plena do objetivo a ser alcançado, como foice prestes a lacerar todos os vínculos antepassados.

O sol, areia da praia, a noite, como cama e lençol de posse, a preparação do corpo, a extensa dança de entrega, sem remorsos, o gozo engolido marcando a boca de um novo ano e gosto, e os corpos na doação mais desmedida, na voragem do prazer mais intenso, ecoam como o carpir de lamentos e assombros permanentes.

Os véus dos disfarces e palavras sem nexo não ocultam os delitos. E, no limo das distâncias, entre a minha e tua boca, despedaçam-se todas as possibilidades...

Tenho dias de fardo. A vida dói entre os nós. Entre nós. A memória, calcinada, não tem silêncios nem pausas.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Texto 39 - Silogismo

Mulher Chorando -Picasso
Algum dia,
Não antes de tarde demais,
Verei que as danças foram em vão
e as fúrias irão me despir

Nua, a carne,
entregarei minha alma ao diabo

E, então, saberás
As ternuras de chuva em que te inventei...

Não antes de tarde demais...