quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Texto 55 - As flores do meu coração

Flores - Di Cavalcanti Eu sei, ainda não é outono e as folhas que enfeitaram os amores na primavera, agora são flores em outros corações, mas nos meus olhos já se anuncia a escassez da última estação. Trago, entretanto, flores tardias em meu peito. Nem todas, miram a luz do sol. Não constam dos catálogos dos biólogos, nem dos balcões das floristas. Cultivo espécimes únicos.



Algumas apenas mimetizam uma lembrança que envelhece à distância. Uma saudade. Outras apenas são uma tarde qualquer sob a chuva. E, algumas, são lírios de desejos carmins ou avencas esperançosas. Há, as delicadas, receosas, antigas flores machucadas, como soluços sem consolo, que não mais se abrem, como as esperanças dos amores inocentes. Há, entristecidas, as que morrem diariamente, por escassez de cuidados e abandonos. Mas, teimosamente, apesar de crer que o outono pode não ser um jardim às avessas, guardo flores no coração.


Escrevo velhas cartas de amor para ninguém, leio livros na varanda e a falta dela na primeira luz da manhã que atravessa minha consciência. Sonho ler todos os poemas e jogar gude tão bem quanto moleque. Bebo muito vinho e ilusões, diariamente, e isto me faz acreditar que não estou morto, mas, se duvidarem, exijo que beijem minha boca por longos dez minutos e, se eu reagir, me possuam enlouquecidamente como um milagre de sua própria existência, a regar as flores em meu coração.


Adoro restaurante, gosto de pratos enfeitados com canela e besteiras, incorretas, na rua, como taboca, caldo de cana e maniçoba no mercado. Danço mal e já perdi mulher por isso, mas engano no forró, que adoro, como um chamado que ecoa lá na memória. Nado pior ainda, tenho colesterol elevado, mas sei andar de bicicleta, viro lobisomem na lua cheia, te garanto, mesmo que você seja incrédulo, e cio, mas, apesar de tudo, tenho leiras de flores no meu coração.

Produzo muito. Acho que sou criativo. Contei só histórias que inventei para meus filhos dormirem, velhas lendas, de amores impossíveis, em que só eu acreditei. E sempre achei que a sala de casa era para jogar bola, fazer corrida de saco, pega-pega, giro maluco e outras invenções que povoam minha alma de menino, nunca vasos e móveis para as visitas. É lá que, apesar dos protestos e um ou outro acidente com arranjos, nos cansamos e ficamos deitados e sujos, no granito frio, abraçados às flores do meu coração.


Sou, essencialmente, emoção. E perdi o medo do choro. Sou péssimo em jogos, não gosto de matemática e falto de forma sistemática a ginástica. Uso óculos desde o canal de parto, sou alérgico a camarão, aviso desde já a quem me convida para jantar, pois já passei umas duas ocasiões devorando salada, sob a alegação de recomendação médica, urucubaca com mariscos, opção ecológica e coisas tais. Já passei dos quarenta e devo estar fora de moda, mas sei amar as palavras como ninguém e sonho flores no meu coração.


Amo as noites de lua, a volúpia dos seus feitiços, o pôr-do-sol que enfeita as moças, de graça, as coisas simples, o cheiro do rio lá na roça. Tenho períodos em que escolho roupas adequadas, outros não e dias que não calço meia por pura preguiça. Ainda creio que para sempre é possível e recomendo aos senhores que nunca deixem a mulher de sua vida lhe esperando para jantar e nunca durma, por maior que seja a zanga, sem perdão. Aprenda isso rápido, antes que seja tarde demais, pois temos todos, alambrados secretos nos jardins e o amor, por ser amor, não basta. Mas, ainda que eu esteja aprendendo a pertencer, tenho flores no meu coração.


Adoro conversar com velhas senhoras e nos apaixonamos reciprocamente. A última que amei assim foi Tia Regi, com sua ternura de fada madrinha, iluminada por candeeiros. Tenho facilidade com as crianças e aversão a chefes e poderosos, onde sempre se está a um passo da bajulação. Conto piadas razoavelmente, improviso e falo muito bem, mas sou ruim com dinheiro. Faço feira como uma boa dona de casa, mas detesto arrumar dispensa. Sei que, no outono, as folhas caem, secas, que os ossos doem feito poeira, mas tenho flores, que dizem te amo, eu meu coração.


Sei que só os amores ensandecidos são capazes de cruzar o longo outono da convivência, por isto aprendi a amar com os loucos. Sei que estou envelhecendo, embora saiba, esperançosamente, que há mulheres que colecionam antiguidades, mas tenho as flores mais novas, inaugurais, que nunca haviam florescido, apavorando meu coração.


Eu sei, eu sei. Não é outono. Hoje é domingo. É verão. As folhas ainda sombreiam todos os destinos. E, agora, eu apenas espero, que alguém cuide das flores do meu coração...

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Texto 54- Aniversário:o tempo, o tempo, o tempo...

Hoje............................................................... Ontem...
Aos leitores, obrigado. Opinem. Não se ocultem. Sem voçês eu não me refaço. Aos que, de fora do país ( Da China a Viena, Portugal, etc, etc,), também nos visitam, deixem um recado, uma opinião, mandem um mail, enfim se manifestem. Da opinião de todos é que posso medir se tem validade ou não continuar fazedno o blog, tecendo em textos o imaginário de vocês, se mudo o rumo. E, se quiserem, sugiram até um tema. Sei lá. Quem sabe sai um texto. Só não vale o silêncio... Basta um olá...

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Texto 52 - O jardim Avesso

O jardim de Giverny - Monet Namorados, enamorados, namorai, enamorai-vos, que ainda é tempo. Ainda que mudem os planetas e queimem as florestas, enamorai-vos. Que o tempo, como diz o poeta, é quando. E o coração não conhece, sabemos todos, outro remédio que não morrer de amores.


É preciso, mais que nunca, remar contra a maré, feito um insensato das convenções e regras. Que a maré, dizem os costumes, é contra o intenso. È rio sem força, talvegue de palmo, é sem estilo e sem destino. Que as relações são todas de balaio raso, de feitio sem enfeite, sem adereços, sem alegorias ou danças imaginárias.

Homens e mulheres olham-se apenas ao redor da cintura e adjacências como se vida tivesse currículo de posse construído na quantidade e não nos imponderáveis desatinos dos encontros improváveis.
Devemos namorar, não os namoros seriais, mortais na banalidade, frágeis na sustentação da vida e de suas inevitáveis dores, limitados por todos os pontos cardeais, tão mortais que sequer merecem um canto da memória. Tão comuns que apenas não passam de amores canibais a devorar a santidade do corpo feminino e a biografia dos homens.

Devemos amar com que ora, atendido pelos deuses, diante daquela mulher improvável, de tão linda. Tão incerta quanto a luz de uma estrela que se desfez há milhões de anos, tão real quanto o milagre de sua boca, dizendo seu nome, se oferecendo como um beijo.

E quando ela dançar nua, dentro de seu vestido, e os cabelos oscilarem como um feitiço ancestral, quando suas orelhas se enfeitarem de brincos grandes, e as chamas devorarem as roupas de suas vestes, quando tiverem lido todas as palavras de todos os livros, de todos os tempos e tiverem aprendido a dizer te amo em todas as línguas e dialetos, enfim, se pertençam, inevitáveis que são.

E, aí sim, o corpo em comunhão e febre, fará de cada um a redenção do outro, irrepetível, atemporal, ilimitado e inesquecível. Porque é preciso amar, ao menos uma vez, um homem ou uma mulher, como quem não sabe dizer adeus. Como quem nunca vai poder dizer adeus. Ainda que a vida, ou os erros, os separe.

É preciso amar como quem tece o fio da vida na existência do outro, no abraço de seu sono, com quem ao dormir se dilui e se infiltra nos poros da pele do parceiro e se tatua no seu corpo inteiro para a distância do momento seguinte, porque sabe que para amar sequer é preciso estar junto. É necessário, apenas, permanecer, porque nada mais irá bastar ou satisfazer.


Então, deixe-se surpreender, quando ele, ou ela, vier. E, embora erremos e amemos enganos, que nem valem a inocência dos apaixonados e o que damos, e nem sabem receber, devemos amar certos amores como quem faz uma leira, ceva e fertiliza a terra onde o outro pisa e a cuida diariamente, com flores e um jeito de olhar que só você terá, como só pode fazer um jardineiro fiel. A amar, e se deliciar de amar, o seu jardim do avesso.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

texto 51 - Ilusões

Não é o que tenho que me pertence.
Nem os seios que margeio
Ou o que tem endereço
e boca vândala de promessas.
Nem o que tenho guardado
-teu ouro do melhor-
ou o que me é dado
no leito, altar dos sacrifícios.

Não é o que tenho que me pertence,
pois meu verdadeiro é só o que me iludo ter.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Texto 50- A flor do meu avesso...

Mulher - Riolan Coutinho
Sei que virá. Pois é tua sina, o eterno retorno. Indultaremos-nos da condenação ao relento, ao pântano das ausências, com suas flores amorfas. Das ruínas do impossível surgirá linda, a alma tatuada de esperanças, o destino marcado para pertencer, as febres eriçando os pelos, a fome de retirante a espera de ser saciada. E surgirá de uma beleza indescritível, a língua com novos dialetos, a linha de meu horizonte na curva dos lábios, o riso de gerar chuvas de espanto e amores.


Eu me prenderei ao anzol de teu cio e não respeitarei as hierarquias de teu corpo e me deixarei em exilo no fluxo das marés de teu ventre. Descansarei no vão de teus seios - animal alado em vôo-, da luta de incriminar as rotas de teu corpo, navegadas sem cais e ordem, das indecências de nosso amor. Eu te sagrarei santa, e tu pecará, pelo meu prazer. Eu me farei devasso para resgatar a porção clandestina de tuas vontades e tu se vestirás de açucenas e lírios e terá cheiro de banho e lavanda.


Na vertigem abissal de tua dança de acasalamento e sedução, e na fartura precisa e exata de tua forma, inscreverei as escrituras de tua permanência, e com o alfabeto de teus encantos, e o sargaço do mar de liames que banha teus olhos, tecerei a cartilha por onde irei rezar. Tu deixarás pai e mãe e eu deixarei pai e mãe, porque a vida se despedaça na tua falta. Inaugurarei tua dinastia, e nos guiaremos pelos luares, para evitar o carpir das despedidas e dos desencantos comuns.


Urdirei tua vida como minha casa, construída peça por peça, e untarei tua pele de meu desejo. Na lavoura de nos amarmos, infindáveis, farei abrigos para te proteger. E cuidarei dos rumores de tuas dores, como minha vindima. Velarei teu sono com o abandono dos amados e quando me acordar, por vontade, saudade, medo da morte ou do fim, e nos jogarmos abraçados nos delitos de nossas bocas insensatas eu saberei enfim, em paz, que você é a flor mais bonita e derradeira do meu avesso.